Mulheres jornalistas donas dos seus negócios
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Como profissionais no Tocantins transformaram incertezas em protagonismo no empreendedorismo feminino Por: Cláudia Orquiza / Supervisão: Profa. Dra. Marluce Zacariotti
“Eu viajava sozinha no meu carro por estradas de terras, quilômetros e quilômetros, e fazia cobertura de aniversários de cidades, festejos, inaugurações e outros.”
Assim foi o início da trajetória de Sandra Miranda, 61 anos, no Jornalismo. A frase resume não apenas os primeiros passos da jornalista, mas também o percurso de muitas mulheres que ajudaram a construir a comunicação no Tocantins.
Entre estradas longas, redações improvisadas, desafios profissionais e a necessidade constante de provar competência em uma sociedade marcada pelo patriarcado, cinco jornalistas tocantinenses transformaram suas vidas, se reinventaram e apostaram no seu poder de gestoras numa profissão que se desenvolveu sob forte concentração empresarial por grandes corporações midiáticas. Em um mercado ainda marcado por desigualdades de gênero, elas também precisaram criar os próprios caminhos.
Esta reportagem reúne as histórias de Sandra Miranda, Roberta Tum, Graziela Guardiola, Maju Cotrim e Sarah Pires, profissionais que fizeram do jornalismo mais do que uma carreira. Em diferentes épocas, veículos e contextos, elas enfrentaram obstáculos comuns e se tornaram gestoras bem-sucedidas.
O que temos para hoje?
As histórias que trazemos nessa reportagem inserem-se nesse cenário. Do pioneirismo, lá nos idos dos anos de 1980 ao momento atual de grandes transformações impulsionadas pelas tecnologias digitais, pelas redes sociais, pela plataformização do trabalho e da vida.
Onde adaptabilidade parece ser a palavra de ordem, as mulheres jornalistas têm protagonizado movimentos importantes de reinvenção profissional. Muitas delas encontraram no empreendedorismo uma alternativa para ampliar sua atuação, conquistar autonomia e construir novos modelos de negócio, mesmo tendo no horizonte o marcador da desigualdade de gênero, da precarização do trabalho e das dificuldades próprias da profissão.
Segundo dados do Global Media Monitoring Project (GMMP), de 2023, as mulheres chegam a representar 62% das profissionais do jornalismo no país. No entanto, essa maioria numérica contrasta com desigualdades estruturais: apenas 27% das mulheres ocupam cargos de liderança, e elas ainda recebem, em média, 18% menos que os homens. Além disso, o estudo “Mulheres no Jornalismo brasileiro”, realizado pela Gênero e Número e Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), em 2023 – que ouviu 421 jornalistas no país – revelou que 86,4% já sofreram algum tipo de discriminação no ambiente profissional; e que 83,6% das entrevistadas já foram submetidas a abusos psicológicos, a humilhações e intimidações.
Um levantamento da Federação dos Jornalistas, FENAJ (2024), revelou que apenas 21% das redações no Brasil são lideradas por mulheres, apontando a grande desigualdade de gênero que ainda existe na comunicação. Dado ainda que mais baixo, do estudo da GMMP, de 2023. A pesquisa Perfil do Jornalista Brasileiro apontou que embora as mulheres representem mais de 60% dos profissionais formados em jornalismo, continuam sub-representadas em cargos de chefia e decisão. Além disso, o levantamento evidencia que as jornalistas recebem salários menores do que os homens, mesmo desempenhando funções equivalentes; são mais afetadas pela precarização do trabalho, com maior presença em vínculos temporários, PJ ou freelancers; e são mais vítimas de episódios de assédio moral e sexual.
No Tocantins, indicadores não são diferentes. De acordo com um artigo publicado pelas jornalistas e pesquisadoras Júlia Carvalho e Marluce Zacariotti, a realidade dos jornalistas no Estado, acompanha os impactos das transformações do mercado e de precarização já observados em todo o país, mas com desafios ainda mais intensos no contexto regional. Em Palmas, a redução das equipes nas redações, o acúmulo de funções e a instabilidade nas relações de trabalho são grandes desafios, demonstrados nos relatos dos entrevistados, que trouxeram, ainda, uma preocupação e causa de muita pressão: a proximidade das fontes, especialmente políticos e empresários, em função do tamanho da capital.
Além das exigências do mercado jornalístico, muitas profissionais precisam conciliar jornadas múltiplas entre redação, maternidade e vida pessoal.
Alessandra Bacelar, presidenta do Sindicato dos Jornalistas do Tocantins, SINDJOR, avalia que as mulheres têm ocupado espaços cada vez mais relevantes na comunicação tocantinense, mas soma-se aos que denunciam as desigualdades estruturais que atravessam a profissão. Segundo ela, essas dificuldades aparecem na sub-representação em cargos de liderança, nas diferenças salariais, na sobrecarga da dupla ou tripla jornada e em situações de assédio e violência de gênero, especialmente no ambiente digital.
Ainda assim, Alessandra destaca que “as jornalistas tocantinenses têm demonstrado capacidade de liderança, resiliência e inovação diante das transformações do mercado”. Para ela, empreender no jornalismo se tornou uma alternativa importante diante das mudanças no mercado de trabalho. “Mais do que uma possibilidade financeira, o empreendedorismo permite ampliar a autonomia profissional, fortalecer o jornalismo local e criar projetos alinhados a propósitos e demandas sociais”, diz. No entanto, ela adverte que liderar um negócio exige conhecimentos além da prática jornalística, envolvendo gestão, inovação, planejamento e sustentabilidade financeira.
“Vejo que o jornalismo no Tocantins tem buscado se adaptar de forma criativa, com profissionais empreendendo, criando veículos independentes, produzindo conteúdo especializado e fortalecendo sua presença nas plataformas digitais”, afirma.
Desafios da sustentabilidade
Todas as entrevistadas dessa reportagem apresentaram, de uma forma ou de outra, os percalços da sustentabilidade. A professora Roseli Figaro, pesquisadora que há mais de 20 anos estuda as transformações do mundo do trabalho e as relações trabalhistas no jornalismo, aponta que um dos principais desafios enfrentados pelos novos arranjos jornalísticos independentes está na manutenção e sobrevivência desses negócios. Em entrevista ao site da Digilabour, a pesquisadora destaca que, diante das transformações no mercado da comunicação, novas discussões precisam ganhar espaço, especialmente sobre regulamentação das plataformas digitais, financiamento e valorização do jornalismo independente. Segundo Roseli, muitos jornalistas que criam iniciativas próprias buscam alternativas diante da instabilidade do mercado tradicional. No entanto, a permanência desses projetos enfrenta obstáculos financeiros constantes. “Os limites são enormes, porque são da ordem da sustentação”, afirma. E completa: “Se antes as reivindicações estavam concentradas principalmente na manutenção dos direitos trabalhistas de profissionais inseridos no mercado formal, hoje também se torna fundamental discutir a regulamentação das plataformas digitais e mecanismos de apoio ao jornalismo independente”, observa.
Nessa linha, é possível citar alguns movimentos que estão em curso como o PL 2630/2020, conhecido como Lei Brasileira de Liberdade, Responsabilidade e Transparência na Internet — popularmente chamado de PL das Fake News e a proposta política da Fenaj para que seja implantado um fundo para investimento em veículos independentes, previsto no orçamento da União.
Entre lutas e s oportunidades
O quadro apontado traz reflexões sobre muitos ângulos: mudanças na profissão, a desigualdade de gêneros, os caminhos possíveis e sinaliza porque as histórias das mulheres jornalistas que trazemos são tão representativas.
O recorde de 10,4 milhões de mulheres empreendedoras, conforme pesquisa do Sebrae de 2024, mostra crescimento. Mas por que as mulheres estão criando negócios? Pesquisas apresentam causas que vão da necessidade de sustentar suas famílias (muitas são mãe solo), flexibilidade de tempo, a criar alternativas no mercado de trabalho que ainda exclui e assedia.
No Tocantins, o empreendedorismo feminino tem ganhado espaço e se consolidado como alternativa de autonomia e geração de renda para muitas mulheres. Dados do Sebrae Tocantins apontam que 28% dos pequenos negócios no estado são comandados por mulheres, cenário que releva o crescimento da presença feminina no mercado empreendedor. E, para incentivar e fortalecer esses negócios, o Sebrae desenvolve iniciativas como o programa Sebrae Delas, voltado ao acompanhamento e desenvolvimento de mulheres que já empreendem ou desejam iniciar um negócio.

De acordo com a analista do Sebrae, Raquel Montelo, uma das principais dificuldades enfrentadas pelas empreendedoras ainda é o acesso ao crédito. Além disso, muitas mulheres possuem boas ideias e vontade de empreender, mas encontram obstáculos na gestão e organização do negócio. Nesse contexto, o Sebrae atua oferecendo ferramentas, conhecimento e acompanhamento técnico para transformar projetos em empreendimentos viáveis. “Quando uma mulher empreende, ela movimenta a economia, gera renda, amplia oportunidades e inspira outras mulheres a ocuparem espaços no universo empresarial”, diz.
O pioneirismo que ajudou a construir a imprensa Tocantinense

Antes da criação do Tocantins e de Palmas e muito antes da internet transformar a comunicação, Sandra Miranda, 61 anos, já desbravava caminhos que poucas mulheres ousavam percorrer. Jornalista há mais de quatro décadas, ela foi uma das primeiras mulheres a empreender na imprensa do antigo norte de Goiás. “Fui a única mulher antes da criação do Tocantins, no antigo norte de Goiás, a fundar um jornal e ser proprietária 100% dele”, recorda. Sua trajetória começou em Araguaína, onde trabalhou na Folha do Tocantins. A experiência despertou a certeza de que poderia ter seu próprio veículo de comunicação. Assim, em novembro de 1985, fundou o jornal independente intitulado O Regional, que mais tarde se transformaria no Primeira Página, hoje considerado o mais antigo veículo em circulação ininterrupta no Tocantins.

Empreender em comunicação naquela época exigia ainda mais coragem e disposição. Sem internet, telefone celular ou infraestrutura adequada, as dificuldades também envolviam a produção do jornal, que na época precisava ser impresso em Goiânia.
Quando o Tocantins foi oficialmente instalado, em 1989, o jornal já estava sediado em Miracema, primeira capital provisória. “Palmas era extremamente precária. Não tinha telefone, não tinha internet. Nós chegamos a usar emprestado o telefone da Associação Comercial para trabalhar”, relembra.
Sandra Miranda construiu sua carreira gestora em um cenário predominantemente masculino. Na época em que comandava um jornal impresso, quase todos os proprietários de jornais em Goiás. Segundo ela, a responsabilidade, a seriedade e o profissionalismo precisavam ser demonstrados constantemente para que seu trabalho fosse validado.
Com a chegada da internet, Sandra também precisou se reinventar. O jornal Primeira Página criou um site antes mesmo dos anos 2000, em um período em que poucos veículos regionais apostavam no ambiente digital. Na avaliação da jornalista, compreender a internet como aliada foi essencial para a permanência dos jornais tradicionais diante das transformações tecnológicas.
A migração para o digital ampliou o alcance do veículo e resolveu antigos problemas de distribuição, embora tenha reduzido parte das receitas da imprensa tradicional. E, assim, mais do que fundar um jornal, ela ajudou a registrar a história de um estado que nascia e abriu caminho para que outras mulheres ocupassem espaços de liderança na comunicação.
Do Alô Galera ao T1 Notícias

“O maior desafio era fazer uma cobertura mais ampla, com uma estrutura de pessoal pequena e manter a independência.”
Quando a internet ainda engatinhava como ferramenta de informação no Tocantins, a jornalista Roberta Tum, 56 anos, já enxergava nela um caminho para ampliar o alcance do Jornalismo Regional. Mais de duas décadas depois, sua trajetória se confunde com a própria história da comunicação digital no estado. Fundadora do portal T1 Notícias e uma das pioneiras do jornalismo online tocantinense, Roberta construiu uma carreira marcada pela inovação, pelo empreendedorismo e pela resistência em um mercado frequentemente masculino e desafiador.
Sua relação com a comunicação começou muito antes dos portais de notícias. Vinda do jornalismo impresso, ela lançou, ainda no final dos anos 1990, uma das primeiras páginas eletrônicas, o periódico Alô Galera, voltado para a juventude e que circulava em dezenas de municípios tocantinenses. “Venho do jornalismo impresso e queria manter vivo esse modelo”, conta.
O empreendedorismo surgiu como consequência natural dessa visão. Incomodada com abordagens que considerava superficiais na cobertura política local, Roberta decidiu criar um blog próprio.
A aposta no tempo real
Um dos momentos decisivos de sua carreira ocorreu em 2009, durante a cassação do então governador Marcelo Miranda. Enquanto muitos veículos ainda trabalhavam em ritmo tradicional, Roberta apostou na cobertura em tempo real. O resultado foi imediato: audiência crescente, reconhecimento do público e consolidação do portal como fonte de informação política. “ Em 2010 eu terminei em primeiro lugar. aí eu entendi que a gente podia disputar e ser primeiro lugar no estado. Nós fomos primeiro lugar durante muito tempo,” afirma.
Apesar da expansão da internet, Roberta destaca que produzir jornalismo digital nunca foi uma atividade barata. “O grande desafio é que um portal de notícias custa praticamente o mesmo que um jornal para ser produzido. A única diferença está na impressão e na distribuição. Na internet você não imprime e disponibiliza o conteúdo para acesso a qualquer hora do dia ou da noite”, explica.
Em um estado cuja economia possui forte dependência do setor público, os períodos de baixa arrecadação representam desafios permanentes para o equilíbrio financeiro. “Você tem custos durante os 12 meses do ano, mas o faturamento nem sempre acompanha esse ritmo”, pontua.
Se no início o desafio era consolidar o jornalismo digital, hoje a principal preocupação está na mudança de comportamento do público. Nos últimos anos, Roberta acompanhou a migração dos leitores dos portais para as redes sociais. A transformação exigiu novas estratégias de distribuição de conteúdo e adaptação constante às plataformas digitais. “Nós que temos os portais mais antigos em atividade no estado, temos um compromisso com a notícia, com a checagem da notícia, com a credibilidade e não com a espetacularização”, defende.
Preconceito em várias camadas
Além dos desafios empresariais e da profissão, Roberta também enfrentou barreiras relacionadas ao preconceito de gênero e à sua orientação pessoal. Ela relata ter sofrido vetos profissionais motivados por questões alheias à sua competência técnica.“Eu cheguei a ter meu nome vetado de uma indicação pra Secretaria de Comunicação do Estado”, segundo afirma, com a justificativa de que uma mulher com a sua orientação sexual não poderia ser secretária de comunicação.
Também enfrentou processos judiciais, ataques pessoais e tentativas de intimidação decorrentes de reportagens e coberturas políticas. Para ela, entretanto, a permanência no mercado durante tantos anos representa uma vitória coletiva das mulheres que abriram caminho para as novas gerações. “Hoje eu sinto que a gente já quebrou muita barreira e isso ajuda muito quem está chegando agora”.
Uma jornalista negra que empreendeu para transformar realidades

Em um mercado onde mulheres negras ainda ocupam poucos espaços de liderança, Maju Cotrim, 38 anos, decidiu ser protagonista da própria história. Jornalista, empresária, escritora e defensora das pautas antirracistas, construiu sua trajetória unindo empreendedorismo, comunicação e compromisso social, tornando-se uma das vozes mais influentes do jornalismo tocantinense.
A história de sua atuação como empreendedora começou em 2016, quando assumiu o desafio de fundar a Gazeta do Cerrado, veículo de comunicação que nasceu com a proposta de fazer jornalismo conectado às realidades locais e às pautas sociais historicamente invisibilizadas. “Como tinham poucas negras atuando, eles não conseguiam nos ver como mulheres capazes de liderar a redação”, lembra.
Maju destaca que para conquistar credibilidade e reconhecimento profissional, precisou demonstrar competência e dedicação acima da média. “A gente teve que realmente mostrar mais que todo mundo, trabalhar mais que todo mundo, infelizmente.”
Antes de empreender, Maju construiu carreira em diversos veículos de comunicação do estado. Trabalhou em redações, portais e jornais, acumulando experiência profissional até perceber que precisava criar seu próprio espaço. A transição da redação para o empreendedorismo trouxe desafios que a universidade não ensinava. Ao fundar a Gazeta do Cerrado e assumir sua gestão, precisou aprender, na prática, competências ligadas à administração, liderança, relacionamento com clientes e planejamento empresarial, habilidades que não fizeram parte de sua formação acadêmica.
Ao se tornar CEO da Gazeta do Cerrado, passou a conciliar as funções de jornalista e a de empresária. Essa experiência fez com que compreendesse a importância de estabelecer limites claros entre o papel editorial e o papel empresarial, explica.
Comunicação como ferramenta de transformação
Se a Gazeta do Cerrado nasceu como empreendimento, também nasceu como propósito. Filha de um quilombola da comunidade da Gurunga, no interior da Bahia, Maju transformou a comunicação em uma ferramenta de fortalecimento das comunidades tradicionais e da luta antirracista. O compromisso social acompanha toda a sua trajetória e foi um dos pilares que motivaram a criação da Gazeta do Cerrado.
Para ela, o jornalismo exerce um papel fundamental ao aproximar as necessidades das comunidades tradicionais dos espaços de debate e tomada de decisão. Essa visão orienta tanto sua atuação profissional quanto a linha editorial do veículo que dirige.Ao mesmo tempo, reconhece que o compromisso social precisa caminhar ao lado da sustentabilidade financeira. “A empresa precisa se manter economicamente para continuar apoiando causas, ampliando vozes e contribuindo para transformações sociais”
Embora reconheça avanços, Maju acredita que a comunicação tocantinense ainda está distante da representatividade necessária. “As trajetórias femininas na comunicação e no jornalismo no Tocantins ainda precisam ser mais reconhecidas”. Para Maju, ainda há um longo caminho a percorrer para ampliar a presença de mulheres negras nos espaços de liderança da comunicação, especialmente em cargos de chefia, assessorias estratégicas e funções de tomada de decisão. Ela também defende a criação de redes de apoio e fortalecimento entre profissionais da área. Na sua avaliação, a principal mudança necessária é cultural. “Mais do que ampliar números, é preciso que a sociedade reconheça a capacidade das mulheres negras de liderar empresas, comandar equipes e construir negócios sólidos e bem-sucedidos”.
Abrindo caminhos para outras mulheres
Além da Gazeta do Cerrado, Maju também atua na área de consultoria por meio da MJ Comunicações. “Eu sei que cheguei a um lugar onde poucas chegaram. Por isso tenho a responsabilidade de abrir caminhos para outras Majus.” E finaliza:“Jamais aceite ser calada ou invisibilizada. Ocupe seu espaço com protagonismo”.
Do jornalismo tradicional a um negócio de assessoria

Da televisão à assessoria de comunicação, a trajetória de mais de 20 anos de Graziela Guardiola, 47 anos, mostra como o jornalismo pode ir além das redações e se tornar uma ferramenta estratégica para fortalecer instituições, construir reputações e gerar impacto social. Graziela atuou como apresentadora e repórter de rede, até que uma experiência profissional mudou o rumo de sua carreira. Durante um intercâmbio promovido pela GloboNews, em São Paulo, conheceu o trabalho de uma assessoria de imprensa responsável por dar visibilidade nacional a uma pesquisa científica. Foi ali que ela percebeu uma oportunidade ainda pouco explorada no Tocantins, a assessoria de comunicação como campo de atuação para jornalistas e ferramenta de desenvolvimento para empresas e instituições. Ao retornar a Palmas, fundou a Precisa Assessoria de Comunicação e Clipping, empresa que se tornaria uma das mais tradicionais do setor no estado.
O início não foi simples. “A principal dificuldade foi explicar a diferença entre assessoria de comunicação e publicidade”, lembra.
Aos poucos, ela foi mostrando ao mercado que mais do que produzir informações, o trabalho consistia em construir reputações, fortalecer relacionamentos institucionais e contribuir para o posicionamento de organizações em um estado ainda em formação.
Habilidades empreendedoras
Ao longo da jornada, Graziela descobriu que ser uma boa jornalista não bastava para empreender. “Sem dúvida, o maior aprendizado foi entender que ser uma boa jornalista não é suficiente para ser uma boa empresária”, afirma.
Além da comunicação, precisou desenvolver habilidades de liderança, gestão de pessoas e administração. O aprimoramento dessas competências foi decisivo para o crescimento da empresa e para sua consolidação no mercado.
Com a chegada das redes sociais e das novas plataformas digitais, a Precisa passou por transformações. Adaptou serviços, formou novas equipes e acompanhou as mudanças do setor.
O trabalho desenvolvido ao longo de décadas recebeu reconhecimento nacional em 2018, quando Graziela conquistou o Troféu Mulher Imprensa, uma das mais importantes premiações voltadas às jornalistas brasileiras.“Receber esse reconhecimento reforçou a certeza de que estávamos no caminho certo.”
Como mulher, também enfrentou desafios em um mercado historicamente dominado por homens. Em uma seleção profissional, ouviu que possuía mais qualificação que outro candidato, mas que a vaga seria destinada a um homem. A experiência reforçou sua decisão de construir o próprio espaço por meio do empreendedorismo.
Hoje, além da atuação empresarial, dedica-se ao fortalecimento do empreendedorismo feminino. Há cerca de dez anos participa da Câmara da Mulher Empreendedora e Gestora de Negócios da Fecomércio Tocantins e integra iniciativas de mentoria e capacitação para mulheres que desejam empreender. Para Graziela, o jornalismo continua sendo uma ferramenta de transformação social, independentemente do ambiente em que é exercido.
De um projeto universitário à gestora de empresa

Ainda na universidade, quando muitos estudantes buscavam o primeiro emprego, ela já pensava em criar o próprio negócio. O que começou como um projeto de conclusão de curso, se transformou em uma empresa de comunicação consolidada em Palmas.
A história da jornalista e empresária Sarah Pires, 33 anos, começou muito antes da criação da sua assessoria de comunicação. Filha de empreendedores da agricultura familiar, ela cresceu acompanhando os pais em pequenos negócios no interior do Tocantins. A veia empreendedora apareceu cedo em sua vida. “Eu vendia cocô de galinha como adubo, vendia planta, revista da Avon, da Natura, vendia Tupperware. Desde criança eu já tinha essa vontade de fazer algo diferente e conquistar minha independência”, recorda Sarah.
Foi durante a graduação em Jornalismo, na Universidade Federal do Tocantins, UFT, que a ideia ganhou forma. Ao perceber que o mercado da comunicação oferecia poucas oportunidades. “Eu vi que, mesmo com o curso superior, ganharia praticamente o mesmo que já recebia com meu curso técnico”. Foi quando Sarah percebeu que precisava construir sua própria oportunidade.
Seu trabalho de TCC, que consistia na criação de uma empresa voltada para assessoria de comunicação e gestão de redes sociais, deu origem á empresa Kiw. Hoje ela atua com assessoria de comunicação, imprensa, gerenciamento de crises e posicionamento institucional.
Construindo um mercado
Quando iniciou as atividades, Sarah encontrou um cenário em que havia muitas agências de publicidade, mas poucas empresas especializadas em assessoria de comunicação e imprensa. Foi preciso não apenas conquistar clientes, mas mostrar a importância estratégica do trabalho jornalístico para empresas, instituições e marcas.
A construção do negócio também contou com o apoio do Sebrae Tocantins. Desde a abertura do primeiro MEI, a empreendedora buscou capacitação para aprender sobre gestão, precificação e planejamento. Ao longo dos anos, a empresa cresceu, profissionalizou processos e ampliou sua atuação, acompanhando as constantes transformações do mercado da comunicação.
Jornalista, mãe e gestora
Entre todos os desafios da trajetória, nenhum foi tão marcante quanto a maternidade. Sarah engravidou durante a pandemia, em um período de incertezas econômicas e instabilidade para muitas empresas. Sem a segurança financeira de um emprego formal, precisou conciliar a recuperação da filha, os cuidados da maternidade e a administração do negócio. “Eu estava dentro da maternidade com o computador na mão, com a minha filha que nasceu prematura. Foi, sem sombra de dúvidas, o momento mais difícil, mais desafiador”, confidencia.
Reinvenção constante
A jornalista acredita que empreender em comunicação exige atualização permanente. “Se você não se reinventar todos os dias, não consegue acompanhar o mercado. O cliente quer o melhor e o mais moderno.”
Essa busca constante por qualificação a levou a investir em especializações e novas ferramentas de gestão e monitoramento, ampliando a capacidade de entrega da empresa.Hoje, além de contar com sede própria, a assessoria opera com sistemas especializados de clipping, monitoramento de marca e análise de resultados.
Ao olhar para trás, Sarah reconhece o quanto sua trajetória representa a força do empreendedorismo feminino. “Se eu que sai mais pobre que a própria pobreza, de uma cidadezinha de 1.900 habitantes, no interior do Estado do Tocantins, andava de pau de arara, estudei em escola pública, consegui cursar um curso superior, morar sozinha numa capital, consegui conquistar minha casa, conquistei a empresa, fazer mais cursos, me profissionalizar mais, ter minha filha, ser mãe solo, outras mulheres também podem acreditar que são capazes”.
Gerir um negócio de jornalismo também é resistir
As histórias dessas jornalistas revelam que o empreendedorismo nem sempre nasce apenas da inovação ou do desejo de abrir um negócio. Muitas vezes, surge como resposta às limitações estruturais do mercado de trabalho. Questões como desigualdade salarial, falta de oportunidades de liderança, vínculos precários de trabalho e a necessidade de conciliar maternidade e carreira aparecem de forma recorrente nas trajetórias das profissionais entrevistadas.
Dados do Instituto Rede Mulher Empreendedora mostram que uma em cada três empreendedoras brasileiras é mãe solo. A pesquisa também aponta que grande parte das mulheres inicia um negócio por necessidade, especialmente mulheres negras e de baixa renda. Outro levantamento da Rede Mulher Empreendedora indica que 55% das mulheres empreendem por necessidade, enquanto barreiras como acesso ao crédito, falta de capacitação continuada e dificuldades de expansão continuam presentes. O estudo do Sebrae que apontou o recorde de mulheres empreendedoras, descreve as dificuldades maiores para mulheres acessarem investimentos e ampliarem suas empresas. No jornalismo, esse cenário é ainda mais complexo. Especialistas alertam que o empreendedorismo não pode ser visto como solução para a precarização da profissão. Defender condições dignas de trabalho, valorização salarial e respeito aos direitos dos jornalistas continua sendo fundamental.
As perspectivas para os próximos anos apontam para um cenário de contínua transformação. A inteligência artificial, o jornalismo hiperlocal, os conteúdos multiplataforma e os modelos baseados em comunidades digitais devem ganhar cada vez mais espaço. Nesse contexto, instituições como Sebrae, Rede Mulher Empreendedora, coletivos femininos e programas de capacitação voltados para mulheres empreendedoras assumem papel importante no fortalecimento de novos negócios. As próprias trajetórias das jornalistas entrevistadas demonstram que o futuro da comunicação passa pela capacidade de adaptação, inovação e construção de redes de apoio. Importante também associar as lutas da profissão como lembra a professora Roseli Fígaro.
Ao olhar para a trajetória dessas mulheres fica evidente que o empreendedorismo feminino no jornalismo vai muito além da abertura de empresas. De Sandra Miranda, que percorreu estradas de terra para fundar um jornal antes mesmo da criação do Tocantins, a Sarah Pires, que transformou um projeto universitário em uma empresa consolidada; de Roberta Tum, pioneira do jornalismo digital, a Graziela Guardiola, que ajudou a consolidar a comunicação estratégica no estado; passando por Maju Cotrim, que transformou a comunicação em instrumento de inclusão e transformação social, todas compartilham uma característica em comum: Elas não esperaram que o mercado abrisse espaço, que alguém trouxesse uma solução mágica. Construíram seus próprios caminhos. E, ao fazer isso, abriram portas para que outras mulheres também pudessem ocupar, liderar e transformar a comunicação tocantinense.
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